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Connection Beirut entrevistou este mês a talentosa artista brasileira Karla Rizk Jaalouk. Natural de Brasília, Karla veio ao Líbano a passeio e descobriu aqui sua paixão pela arte. Desde então vem pintando quadros com inspiração no Oriente Médio. Da varanda de seu apartamento em Beit el Chaar, a cerca de 15 minutos de Beirute, Karla contempla o mar Mediterrâneo e narra como surgiu a paixão pela arte.

A artista chegou ao Líbano com 29 anos, casou-se com o médico Georges Jaalouk e a partir de então, deu asas ao seu talento artístico, dádiva essa quem vem transmitindo para toda família. Suas filhas Karolina e Karina, 16 e 15 anos respectivamente, pintam também, cada uma com seu estilo, mas não com menos graça que a matriarca.

Connection Beirut: Você poderia falar um pouco sobre sua origem libanesa?

Apesar de brasileira, tenho origem libanesa e sou mãe de três filhos. Meus pais chegaram ao Brasil ainda novos e lá se conheceram e se casaram. Moraram inicialmente em Goiânia, mas foram para Brasília ainda no início da nova capital e por lá ficaram até 4 anos atrás. Venho de uma família de 4 filhos, sendo eu a única filha mulher da família. Porém, fui a primeira que adotou o Líbano como sua segunda moradia e sou muito feliz e realizada aqui. Há 2 anos atrás meu irmão deixou o Brasil e se juntou a nós no Líbano, o que me deixou extremamente feliz pois retornamos ambos a nossas origens, assim como meus pais que regressaram ao Líbano. Tenho somente um único irmão que ainda vive no Brasil.

Connection Beirut: Você se considera mais brasileira ou libanesa?

Eu me considero brasileira, mas gosto do Líbano, me sinto muito bem vivendo aqui. Enxergo questões que deveriam melhorar, mas sei que não existe lugar perfeito, pois o mesmo ocorre no Brasil. Sendo assim, decidi viver por aqui e sempre que posso visito o meu Brasil, que tem uma importância em meu coração. Tento transmitir isso aos meus filhos, tanto é que todos falam português desde pequenos e é o nosso idioma em casa. Faço questão de mandar até mensagens pelo celular em português para que todos compreendam nossa língua materna. Até mesmo meu marido libanês já entende português, pois ele fala italiano, mas com ele falo em árabe. Meus filhos todos falam inglês, português, árabe e francês e vejo o país como o lugar em que eles ficarão até a formatura da graduação. Desde já eles pensam em fazer especialização na Europa e até mesmo no Canadá. O futuro dos meus filhos é morar fora, entretanto já sabem que temos o Líbano como o ponto de referência, pois daqui eu não saio.

Connection Beirut: Conte-nos como surgiu em sua vida a paixão pela arte.

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Karolina, Karla e Karina

A pintura surgiu a partir da minha filha mais velha, Karolina, que desde os 9 anos já ganhava prêmios no colégio nas competições de arte. Foi então que decidimos inscrevê-la na aula de artes com a professora de arte e amiga Maureen Haroun, aliás, ela foi a grande incentivadora não só da Karolina, mas como minha e da Karina. Por essa razão, faz 6 anos que estamos pintando em família.

Connection Beirut: Como você se vê nos próximos 10 anos ?

No futuro me vejo como uma professora de arte e porque não como uma proprietária de uma galeria. Já venho auxiliando minhas colegas de pintura quando estamos todas pintando no ateliê onde frequento. A arte me completa e me realiza, já não me enxergo sem minhas obras e meus quadros.

Connection Beirut: De onde vem sua inspiração para pintar seus quadros?

 

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Minha inspiração vem da arte oriental, não consigo me imaginar pintando imagens tropicais, uma baiana ou até mesmo um palhaço por exemplo. Prefiro o clássico e evito pintar pessoas conhecidas. Pintar exige paciência e calma, levo em torno de 4 meses para terminar um quadro e, muitas vezes, preciso pintar 4 vezes o mesmo quadro, pois pinto a óleo. Quando trabalho o rosto do personagem muitas vezes fico em torno de 5 horas pintando. Na confecção de meus personagens mesclo imagens mudando rostos e pessoas, mas sempre buscando o Líbano como inspiração.

Connection Beirut: Sabemos que você vive no Líbano há 17 anos. Poderia compartilhar conosco suas experiências de como é viver no Oriente Médio?

Nunca deixei o Líbano desde que cheguei, apenas para viagens de férias. Nem se quer sai durante as guerras, mesmo na última de 2006. Nunca presenciei nenhum confronto, pois estava sempre fora da área de conflito e não tenho medo de viver no Líbano. Mesmo durante períodos de conflito nossa rotina sempre foi a mesma, meu marido trabalhou normalmente, só evitávamos as área de risco.

Eu já tive uma loja de decoração de festas, mas tive dificuldade em conciliar o trabalho e a família, pois as festas ocorriam quase sempre durante os finais de semana e a família acabou ficando em segundo plano. Sendo assim, optei por fechar o negócio e dar prioridade a minha família.

Connection Beirut: Viver em um outro país é um desafio que todos enfrentam quando decidem recomeçar uma vida fora de sua terra de origem. Como foi esse novo começo para você ?

A dificuldade de adaptação no começo ao Líbano foi extrema, apesar de ter casado apaixonada. Tentei por diversas vezes trazer meu marido para o Brasil, mas ele não queria recomeçar novamente seus estudos, pois como médico já tinha trabalho e reconhecimento profissional no Líbano. Foi difícil deixar meu negócio no Brasil, precisamente em Brasília. Eu era proprietária da loja Sobrepele, uma loja de tecidos finos que era referência em Brasília, onde a alta sociedade de Brasília comprava os tecidos para as grandes festas da capital federal. Sofri por 2 anos, mas agora não mudo de modo algum. Chorei muito no começo, mas me adaptei e não me mudaria de modo algum, pois gosto de morar aqui, tenho amigas libanesas e também conheço muitas brasileiras que encontro com frequência para matar a saudade do Brasil. Minha família é numerosa, quando nos reunimos para um almoço em família temos facilmente 100 pessoas!

Faço comida brasileira todos os dias, não sou fã de fazer comida árabe, pois acredito que a comida árabe pode ser degustada em restaurantes libaneses. E tenho uma sogra que pode cozinhar comida libanesa melhor do que eu! Meus filhos, apesar de serem libaneses, preferem a comida brasileira. Sou feliz aqui e espero poder continuar no Líbano, país que me acolheu e que me deu a oportunidade de conhecer minha verdadeira vocação.

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Por Viviane Carvalho

by Viviane Carvalho

por Viviane Carvalho

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