O vale da Bekaa tem sido o palco histórico de passagem de várias civilizações, as quais deixaram a sua marca no tecido social e cultural da região. Desde o final da Guerra Civil Libanesa, cristãos, sunitas, xiitas e drusos vivem em paz. No entanto, alguns avaliam esta paz como “frágil”.

Entre os mais de meio milhão de habitantes que residem na região, quase metade são refugiados sírios que escaparam da violência da guerra síria. A recepção destes refugiados é um gesto humanitário generoso e exemplar do povo libanês. No entanto, no dia-a-dia notam-se crescentes tensões entre as diferentes comunidades, principalmente relacionadas com o acesso aos serviços públicos básicos e emprego. Muitos inquietam-se sobre o futuro.

Neste artigo, Connection Beirut (CB) investiga como, apesar dos desafios deste contexto, a região da Bekaa adapta-se e continua a florescer. A força do povo da Bekaa é notável, mas quais são os condicionantes que asseguram a estabilidade e coexistência pacífica? Como se faz a prevenção e a resolução não violenta dos conflitos? Será que existe “unidade” entre as diferentes comunidades para enfrentar os problemas?

CB entrevistou Joanna Nassar, ativista e Gerente de Projeto do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) “Construção da Paz no Líbano.” Nassar, começa por explicar que atualmente a gestão de conflitos na região é crucial, uma vez que é uma das áreas que hospeda o maior número de refugiados no país. “É uma obrigação focalizar na resolução dos mesmos!”

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Sra. Nassar durante evento organizado por Wadi Khaled

Como se constrói uma cultura de paz?

Segundo Nassar, a construção da paz começa ao nível local! Reúnem-se pessoas chaves das diversas comunidades como prefeitos, vereadores ou mukhtars, à volta de um projeto de interesse comum. Este contato direto, é por si só relevante pois permite aprofundar o diálogo entre as comunidades. São providenciadas formações em áreas cruciais como a resolução de conflitos, negociação e liderança participativa. Em seguida, o grupo analisa os conflitos locais que ocorrem, compartilham experiências e frustrações, e adotam de forma conjunta estratégias para gerir as discórdias. Este é o caso do Comitê Sociocultural Sírio-libanês. Na aldeia de Majdel Anjar, o comitê cria espaços de diálogo entre as diferentes comunidades. Além disso, eles estabeleceram um sistema de controlo de conflitos e proteção dos direitos humanos e fazem o registro de todos os casos de tensões e violações. É de louvar como através da sua mediação de conflitos familiares e sociais, conseguem encontrar soluções pacíficas para os problemas. Existem outras atividades semelhantes no oeste do Bekaa, onde por exemplo, um aglomerado de vilas estabeleceu uma Organização não-governamental (ONG) chamada “Darb el Salam” (o caminho para a paz) que visa a resolução de conflitos entre comunidades libanesas. Outros projetos destinam-se a construir a confiança entre os cidadãos e os funcionários eleitos.

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Na aldeia de Majdel Anjar durante debates

Num contexto em que os municípios do Bekaa enfrentam enormes desafios, estas iniciativas por si só, não são suficientes para construir a paz. Existem necessidades de sobrevivência diária, como o acesso ao emprego e à água e a gestão de resíduos! Sra. Nasser explica que a abordagem abrangente do PNUD é complementária pois inclui o apoio aos municípios na prestação de serviços básicos em áreas cruciais, tais como a gestão da água e dos resíduos, bem como a criação de oportunidades de subsistência.

 

Jovens e construção da paz

“Os jovens são, definitivamente, os principais catalisadores da mudança para a construção de uma cultura de paz”, diz Nassar. Em muitas aldeias a juventude tem desempenhado um papel central em iniciar diálogo com refugiados sírios. Visam reduzir as tensões e resolver os incidentes recorrentes de preconceito. Eles vocalizam a importante mensagem de não-discriminação e aceitação do outro.

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Apesar dos múltiplos desafios existentes, entre as quais o aumento das tensões entre os 18 credos religiosos, Nassar acredita que o Líbano pode ser um exemplo positivo de construção da paz. É um desafio continuar a abordar as causas de conflito, mesmo quando são delicadas. No entanto esta é a forma de garantir uma paz sustentável. Nassar mantém uma visão otimista do futuro, afirmando: “temos recursos disponíveis, como a juventude, os jovens profissionais, os especialistas, os ativistas e outros que nos últimos anos têm lutado arduamente por diferentes causas cívicas. Eu acredito que existe esperança “.

Por Patrícia Oliveira

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