Conheci Farah em outubro de 2015, quando uma delegação brasileira, guiada pelo ACNUR, foi visitar dois alojamentos de refugiados sírios um pouco ao sul de Saida, no Líbano. Saida, para quem não sabe, é a Sidon da Bíblia, o ponto mais ao norte das caminhadas de Jesus Cristo. Ali há uma gruta, no alto de um morro, onde dizem que Maria esperava enquanto Jesus descia para pregar na sinagoga.

O que se segue é a história desse encontro.

 

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Farah no caminho para ver o médico

Nós encontramos duzentas e vinte famílias sírias, mais ou menos 980 pessoas, no que a ACNUR chama de Pepsi Underground Collective Shelter. É um squat de um velho prédio comercial. Úmido, frio, escuro, com gatilhos elétricos por todos os lados. Água pingando, contrastes de luz e sombra, pessoas circulando, crianças correndo para nos ver, como se fossemos uma delegação de extraterrestres amistosos. Ou como numa cena de Blade Runner.

Todos vêm de um subúrbio nos arredores de Homs. Apesar dos esforços do ACNUR, que gostaria de colocá-los em local mais saudável, nenhum aceita sair de lá sem os outros (a não ser, hipoteticamente, que seja para a Alemanha ou a Suécia, imagens do Jardim de Éden).

Papéis expirados. Proibição de trabalhar. Ração alimentar do PMA cortada pela metade por “falta de verba”. Alguns registrados, outros não, por razões misteriosas.

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Crianças brincam no acampamento Pepsi Collective Underground Shelter em Saida-Líbano

O Líbano permite o acesso à escola mas muitas crianças não vão, por falta de dinheiro para pagar o transporte.

Sentamos com uma família. Nove pessoas em 30 m2. Três irmãos, esposas, filhos. Conversamos com o irmão mais velho. Uma colega do ACNUR, pergunta como e porquê ele saiu da Síria. Desconforto do patriarca. Um irmão explica: “ele não gosta de lembrar”. O mais velho: “não me pergunte como saí de lá, me pergunte como vivemos aqui ».

As crianças têm doenças de pele por causa da humidade. Nem todos estão registrados. As rações dos que estão, tem de ser divididas por todos. Uma confusão com a papelada. Estão lá há quatro anos. Impossível voltar a Homs, a cidade está destruída, as bombas caem, não há quase civis. Mas é isso que querem, voltar para Homs, ou senão, Alemanha e Suécia, Suécia e Alemanha. Podemos ajudá-los a conseguir visto para a Alemanha e Suécia?

Não, explica nossa colega do ACNUR. Estes senhores são do Brasil.

São todos camponeses ou trabalhadores manuais. Só falam árabe. Não têm os códigos da emigração legal ou ilegal. Sugerir que marquem uma entrevista num consulado – é quase como se dissessem a eles que fossem à lua.

Conversamos um pouco sobre os prós e contras da emigração para o Brasil.

Uma senhora falante, esposa do patriarca, nos conta que sua filha está perdendo a visão, por falta de uma operação de córnea. Nossa amiga da ACNUR pergunta para um colega: “nós não podemos fazer nada?” A resposta: “nosso seguro para eles só cobre emergências com risco de vida”.

A mãe pergunta se eu quero ver a criança. Sim. Vem uma menina de quatro anos, doce, sorridente, com o olhar errante dos cegos. Segura um limão na mão. Me chego para perto dela, acaricio sua mão, pego o limão. Ela diz uma coisa doce em árabe. Todos riem: “ela pede para você devolver a maçã”. Devolvo, dizendo: “não é maçã, é limão”. Ela fala de novo: “ela pede para você descascar para ela ».

 

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Famílias refugiada sírias que vivem no acampamento Pepsi Collective Underground Shelter

 

Trazem café. É delicioso, como o que me deram na casa da família que visitamos no local que a UNHCR chama de Kassar El Riz / Tanak Bridge, uma favela na beira de um riacho, que nos pareceu miserável, mas que perto de Pepsi Underground Collective Shelter, é positivamente nababesca.

Em Kassar El Riz / Tanak Bridge, os espíritos ainda estão intactos; em Pepsi Underground Collective Shelter, sente-se a aproximação insidiosa do ponto de ruptura.

Tomamos o café rápido: a ACNUR nos apressa. Nos despedimos da família, agradecendo a hospitalidade.

Vou embora com a impressão de que no dia seguinte, Jesus seria pregado de novo na cruz, mil vezes, em Pepsi Underground Collective Shelter, ao sul de Saida (a Sidon da Bíblia).

Se você tiver interesse a ajudar Farah, curta  a página do Facebook Farah’s Friends – Amigos de Farah, onde você poderá acompanhar os passos para ajudar a pequena Farah.

Por Achilles Zaluar

Achilles Zaluar é diplomata brasileiro e atualmente vive em Beirute.

 

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