Connection Beirut teve a honra de entrevistar o renomado ator, diretor, roteirista e professor de artes cênicas libanês, Mounir Maasri, que se encontra atualmente em Beirute. Mounir, que deslanchou sua carreira artística bem sucedida em 1962, no Líbano e no exterior, trabalha no Líbano e no Brasil, escrevendo, dirigindo e atuando. Aos 76 anos de idade e 54 de carreira, nos conta sua experiência de vida.

 

Connection Beirut : Como você se tornou ator e ganhou essa vasta experiência nas artes cênicas?

 

Mounir Maasri: O cinema sempre me fascinou. Desde meus 8 anos sonhava em ser ator e montava peças de teatro amador para a família e os conhecidos, em Aley, onde morávamos no Líbano. Havia um cinema na cidade onde meu primo trabalhava. Quando me mandavam levar seu almoço, eu me escondia por entre as cadeiras e me deixava ficar, por horas, extasiado, assistindo a filmes franceses, italianos e norte-americanos. Ali começou a se consolidar meu anseio de ser ator, e de estudar Artes Cênicas em Nova Iorque. Em 1959, aproveitando a ida de um amigo ao Estados Unidos, escrevi ao grande diretor Elia Kazan que, pelo nome, achei que fosse libanês. Na carta, eu lhe dizia de minha vontade de ser seu aluno. Kazan se sensibilizou e, mesmo não sendo libanês (era turco-chipriota), respondeu-me, contudo não me encorajou. Ao contrário, dizia-me o quanto seria difícil um estrangeiro ingressar na indústria cinematográfica americana. Mesmo assim, decidi ir e enfrentar o desafio. Com a ajuda da família, que acreditava em meu potencial, viajei em 1960 para Nova Iorque, onde fiquei por 2 anos, estudando Artes Cênicas com Lee Strasbourgh, famoso professor do “Actors Studio” e do “Senior Dramatic Workshop”.

Retornei ao Líbano em 1963, determinado a continuar no caminho das artes cênicas. Tão logo voltei, comecei a receber convites para trabalhar em várias produções, locais e estrangeiras. Nem a guerra, que começou em 1975, me fez parar. Lembro-me de uma peça de teatro em que trabalhamos, no “Cassino du Liban”, “The Dream Maker”. Era 1984 e os bombardeios, em Beirute, constantes e selvagens. Mesmo assim continuamos. Para nós, artistas, esta era uma forma de resistência. Como falava fluentemente inglês, francês e árabe, recebia constantes convites para trabalhar no exterior: França, Jordânia, Itália e outros países, mas jamais considerei a possibilidade de deixar o Líbano. Não naquele momento, em que o país, fragilizado e sob ataque, precisava de todos nós.

 

Connection Beirut: Sabemos que você realizou diversas peças de teatro e filmes, e teve uma excelente recepção do seu trabalho, inclusive ganhando prêmios importantes internacionalmente. Nos conte sobre sua carreira.

 

Mounir Maasri: Produzi, dirigi e atuei em várias peças de teatro, minisséries para televisão e longa metragens, libaneses e estrangeiros. Meu trabalho foi recompensado com prêmios em vários festivais internacionais, dos quais cito alguns: em 1963, atuei como protagonista no filme “Garo”, ganhando o prêmio de melhor ator, concedido pelo “Centre du Cinema Libanais”; em 1967, também como protagonista, atuei no filme libanês “Le Muet et l’ Amour”, que recebeu prêmios nos Festivais de Roma, Tashekent (Uzbequistão) e Tanger (Marrocos); em 1972, escrevi, produzi, dirigi e atuei como protagonista, no filme “Le Destin”, que participou de vários festivais internacionais, dentre eles a “Quinzena dos Diretores”, em Cannes, “The East meets the West”, em Roma, o Festival Internacional de Cartago, na Tunísia e o Festival Internacional do Filme, de Moscou. Em 1974/75 atuei na superprodução “The Messenger”. Em 1984, a peça “The Dream Maker”, que produzi e na qual atuei como ator principal, ganhou o prêmio de melhor peça de teatro, no Festival Internacional de Teatro de Cartago, Tunísia.

 

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Mounir Maasri com seus alunos do Institute for the Perfoming Arts

 

Connection Beirut: Ao longo de sua carreira, você teve muita experiência em vários países, e pôde participar e ajudar a desenvolver as indústrias do teatro, televisão e cinema no Líbano. Como você enxerga o desenvolvimento das artes cênicas no Líbano?

 

Maasri: Tenho a honra de ter feito parte de um seleto grupo dos pioneiros na área. Antes dos anos 60 não havia movimento teatral no Líbano. A televisão começou em 1959 e se resumia à TeleLiban. Mas desde essa época diversas produções foram realizadas no país. Uma delas foi “Garo”, filme de grande repercussão, produzido em 1963, que contava a vida de um dos maiores bandidos do Líbano. Para escrever o roteiro, encontramos em segredo seu bando, então procurado pela polícia. Demoramos 8 meses para finalizar o filme, porque só podíamos comprar uma lata de película por mês. Mas, mesmo com tão poucos recursos, o filme foi um grande sucesso. Atualmente, constato que a indústria midiática libanesa rompeu barreiras e faz muito sucesso em todo o Oriente Médio. Na esteira desse sucesso, o dialeto libanês se tornou muito mais conhecido. Resumindo, vejo progressos e tenho grande expectativa de mudanças para meu país.

 

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família Maasri: da esq.para dir. Rose Marie, Jessica, Natasha, Yara, e Mounir

 

Connection Beirut: Mounir Maasri, você é casado com uma brasileira. Fale-nos sobre sua relação com o Brasil.

 

Maasri: Em 1974, enquanto participava, na Líbia, do filme “The Messenger”, sobre a vida de Mohammad, conheci Rose Marie que, por ser funcionária do Ministério da Relações Exteriores do Brasil, estava trabalhando na embaixada brasileira em Trípoli. Algum tempo depois nos casamos. Ela se mudou para o Líbano em pleno período da guerra. Temos 3 filhas. Devido à profissão de Rose, viajamos muito, morando em diversos países, dentre eles a Grécia, os Estados Unidos, a Itália e, obviamente, o Brasil. Eu diria que meu coração é brasileiro-libanês. Precisei criar raízes nos dois países  já que nossas filhas, Natasha, Yara e Jéssica, embora nascidas no Brasil, são libanesas e brasileiras.

 

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Na floresta amazônica durante filmagem de ” Dois Irmãos”

 

Connection Beirut: Você foi o protagonista do filme brasileiro “ A Última Estação”, produção que retrata a saga da diáspora libanesa no Brasil. Como foi participar de um filme produzido no Brasil e no Líbano?

Mounir Maasri: Foi com surpresa que recebi o convite para ser o protagonista do filme. Li o roteiro em 48 horas, e me apaixonei por ele, pois retrata a história da ida dos libaneses que buscavam no Brasil a liberdade, o progresso, uma nova vida. “A Última Estação” foi a primeira coprodução audiovisual líbano-brasileira. E foi possível graças à parceria firmada entre as empresas brasileiras Asacine – de Márcio e Beth Curi, e Cinegroup – de Mônica Monteiro, com a libanesa Day 2 Picture, de Georges Karam e Nouha Choufaine. O set de filmagem principal foi em Paulínia, São Paulo, mas também filmamos em Brasília, Anápolis e Belém, bem como no norte do Líbano, em Miniara. Todo o elenco e produção, inclusive o diretor, Márcio Curi, de descendência libanesa, vieram para cá. Marcio ficou extasiado com as belezas naturais do Líbano e com a hospitalidade de seu povo.

Para preparar o filme, o roteirista, o diretor e a produtora executiva, Beth Curi, realizaram uma enorme pesquisa de campo, entrevistando membros de cerca de 50 famílias libanesas residentes em São Paulo, Brasília, Campinas e Goiânia, que contaram a história dos avós, mascates em sua grande maioria. Fortemente baseado em fatos reais, “A Última Estação” conta a saga de famílias libanesas que chegaram ao Brasil vindo de várias partes deste país, e se conheceram durante a longa travessia de navio, onde ficavam confinados por cerca de 40 dias. Retrata, assim, muito bem, a saga da emigração libanesa, chaga aberta na identidade de nosso povo, que sangra, fecha e se reabre, durante todo o decorrer de nossa história.

 

 

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Mounir Maasri e o ator global Antônio Fagundes durante a filmagem de ” Dois Irmãos”

Connection Beirut: Maasri, conte-nos sobre os projetos para o futuro e suas novas ambições.

Maasri: Em 2015, no Rio de Janeiro, participei de uma grande produção da Rede Globo, a minissérie “Dois Irmãos”, baseada em um livro do mesmo nome, do escritor brasileiro Milton Hatoum, de ascendência libanesa. A minissérie tem grandes nomes da indústria cinematográfica do Brasil, como o diretor Luiz Fernando Carvalho, os atores Antônio Fagundes, Eliane Giardini, Juliana Paz, Antônio Caloni, Cauã Raymond, Irandir Santos e muitos outros. Participei da produção como instrutor de dramaturgia do núcleo libanês do elenco, e também como ator. A minissérie, que retrata a estória de uma família libanesa originária de Byblos, que se estabeleceu em Manaus, deve ir ao ar em janeiro de 2017.

Também faço parte do Núcleo Criativo da empresa Asacine, de Elizabeth e Márcio Curi, para quem co-escrevi recentemente dois roteiros: “Campus Santo”, um longa que conta a estória de um grupo de alunos na Universidade de Brasília nos anos 80, e “O Segredo da Serpente”, que narra a aventura de um jovem na floresta amazônica, retratando a riqueza da mitologia brasileira por meio de personagens como Curumim, Curupira, Mapinguari, a Iara e vários outros.

Aqui no Líbano, estou atuando no filme “Sainte Marina”, produzido por Tomy Farjallah, sobre a famosa santa libanesa que viveu no século VI, no norte do país. Estou preparando também três outros projetos: dois longa metragens que escrevo e vou dirigir, e uma novela para a TV, que estou escrevendo com roteirista libanês Yvan Harfouche.

Quanto ao futuro, busco sempre novos projetos. É minha forma de interagir com a sociedade, oferecendo-lhes minha experiência de contador de estórias, todas baseadas em lições que aprendo com a vida.

Por Viviane Carvalho

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