Num país tão religioso, e repleto de expressões simbológicas de fé, como é o Líbano, torna-se curioso observar como existem superstições antigas, praticadas e passadas de geração em geração, que continuam presentes na vida da sociedade libanesa; principalmente entre os idosos, que acreditam que certos objetos podem afastar maus espíritos e dar-lhes proteção.

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Tradições populares descrevem os espíritos mais comuns como sendo invisível para os seres humanos, mas afirmam que eles podem ser do bem, do mal, ou neutros. Paralelo às suas próprias e distintas crenças religiosas, libaneses ainda conseguem acreditar em tais superstições, e mantêm amuletos e talismãs da sorte, usados para expulsar os maus espíritos, ou reverter feitiços, e que são facilmente encontrados em lojas de perfumes, cosméticos e bijuterias, e são chamados de “attars”.

Os “attars” são vendidos e vêm acompanhados de conselhos, oferecidos pelos lojistas sobre quais itens seriam melhores para resolver uma determinada situação, e como ele deverá ser usado. Mas, é fato também, que a maioria destes ítens é comercializada mais a título de decoração, do que necessariamente para fazer o bem ou o mal, ou tampouco reverter e quebrar algum feitiço ou algo do gênero.

Há quem procure por coisas estranhas, assim como há quem busque por algum amuleto específico, com seu próprio intento. E há ainda, os que procuram por essas lojas em busca de algo, mas já trazem consigo, as suas próprias e inacreditáveis histórias também. Como por exemplo, uma pessoa que busca pelo talismã de “peixe-voador” para expulsar espíritos malignos. Muitos acreditam na existência desses espíritos, e em muitos casos, eles são mais bem tratados, ou sagrados, do que os próprios amuletos e talismãs em si.

O peixe-voador é encontrado no Mediterrâneo, e segundo a crendice libanesa, depois de seco ele é pendurado no quarto das mulheres que sofreram um aborto espontâneo, pois acreditar-se que os abortos espontâneos são causados por espíritos malignos. A crença no amuleto alega que o talismã é eficiente, e usado por muitas famílias, há muitas gerações, pois “Deus o criou com esse propósito”, alegam os supersticiosos. O amuleto do peixe-voador custa aproximadamente LL 20,000.

Outro item muito procurado, é uma “estrela do mar” seca, que é vendida por LL 7,000 e que segundo a crença, ao ser pendurada nas residências traz boa sorte e felicidade, além de ser decorativo.

Os amuletos de cor azul podem ser meramente decorativos também, mas muitas pessoas os penduram nas casas, acima das portas, dentro dos carros, no intuito de evitar acidentes. Geralmente, eles vêm acompanhados de algum provérbio escrito, como “O invejoso pode ficar cego”, por exemplo.

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Olho grego

De acordo com algumas pessoas, a história do amuleto de ferradura começou com duas tribos de combate, onde o chefe de uma tribo pediu àqueles que não quisessem lutar, para pendurarem uma ferradura acima de suas portas, a fim de trazer segurança. E desde então, a ferradura vem sendo pendurada, na intenção de trazer segurança e de proteger a casa, da destruição, da inveja e da morte.

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Amuleto de ferradura

Há uma lenda urbana libanesa também, que diz que cobrir o corpo de um recém-nascido com sangue de morcego, impedirá que a pessoa tenha pêlos em seu corpo no futuro. As opiniões à cerca dessa prática se divergem. Alguns alegam que isso é apenas uma crendice antiga sem fundamento, outros afirmam sua eficácia e veracidade.

A classe médica libanesa também se divide nessa questão, uns afirmam existir propriedades anti-pêlos no sangue do morcego, e outros descartam a existência de qualquer fundamento nessa prática; e alertam sobre os perigos que isso pode trazer ao recém-nascido, como por exemplo, o risco de transmissão da raiva.

Outra crença popular está relacionada ao “Eid El Barbara”, comemorado anualmente em 04 de dezembro por cristãos libaneses, sírios, jordanianos e palestinos. A celebração é devotada à Santa Barbara, cuja lenda diz que a mártir teria se disfarçado de muitos e diferentes personagens, para iludir os romanos que a perseguiam.

Todavia, no Líbano, embora a tradição cristã esteja envolta na data, inclusive com pratos e doces específicos preparados apenas nesse dia (entre outras práticas, que se estende até o Natal), o evento se assemelha muito às tradições do Halloween americano. As crianças se fantasiam e saem de porta em porta, tocando tamborins e cantando “Heshle Burbara” (Barbara está fugindo), cuja letra incita o dono da casa a poupar algumas moedas (aqui substituídas por doces e guloseimas) em troca de boa sorte.

Essas são apenas algumas, das superstições e crenças libanesas e suas histórias, mas há muito mais, inclusive em cada região e comunidade religiosa, há sempre algo novo e inusitado a se aprender.

 

por Claudinha Rahme

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