IMG_7961 IMG_7959Adam Jayme Muniz, diplomata nascido em Brasília, tem apenas 31 anos e já possui vasta experiência ao longo de nove anos de trabalho no Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Em entrevista para a Connection Beirut, ele nos conta um pouco sobre o trabalho à frente do Setor Cultural da Embaixada do Brasil no Líbano e nos fala sobre a arte brasileira e seus artistas preferidos.

C.B: Você poderia nos dar um pequeno resumo sobre a sua carreira como diplomata brasileiro?

Aos 22 anos, depois de ter concluído o curso de Relações Internacionais na Universidade de Brasília, fui aprovado no concurso de admissão à carreira de diplomata do Itamaraty. Após os dois anos do curso de formação no Instituto Rio Branco – nossa academia diplomática –, minha turma foi convidada pelo então Chanceler Celso Amorim a realizar missões transitórias em postos com vagas de lotação. Era um momento de expansão da rede de postos brasileiros no exterior; para se ter uma ideia, o número de embaixadas na África havia aumentado de 17 para 34. Por conta da expansão, alguns postos ficaram defasados em termos de recursos humanos. Fui então designado para uma missão no Quênia por dois anos. Depois, fui transferido para a Delegação do Brasil junto à UNESCO em Paris e, quase quatro anos mais tarde, para o Líbano. Em Paris, onde era responsável pelos temas ligados a patrimônio, acabei me enveredando pela área cultural.

C.B: Você é o chefe do Setor Cultural da Embaixada Brasileira no Líbano, também responsável pelo Centro Cultural do Brasil-Líbano que possui apenas quatro anos de existência. Que avaliação você faria sobre o trabalho do Centro Cultural no último ano e quais seriam os planos futuros?

IMG_7952O nosso Centro Cultural está entre os mais recentes da Rede Brasil Cultural, que é a denominação dada ao conjunto de instituições do Itamaraty para a promoção da língua portuguesa. Temos centros com mais de 30 anos, porém vejo o Centro Cultural Brasil-Líbano muito bem estabelecido, o público já sabe da sua existência e é cada vez maior a repercussão das nossas atividades na mídia libanesa.

A principal vocação do Centro é a promoção da língua portuguesa e cerca de 500 pessoas foram atendidas somente no último ano. Daqui para frente, em termos de capacidade de expansão, há uma limitação. Acredito que dificilmente conseguiremos duplicar o número de alunos no curto prazo. Nossa estratégia atual é expandir os locais de atendimento aos alunos fora de Asharafieh, onde o Centro está localizado, principalmente para a região do Bekaa (Zahle), Kaslik e Trípoli, com fortes vínculos com o Brasil. Já estamos em contato com algumas instituições locais em busca de parcerias para poder descentralizar a oferta dos cursos nestas regiões.

Outro importante resultado alcançado foi a graduação da primeira turma, com enfoque em todas as competências da língua portuguesa ao longo de três anos. Constatamos que os libaneses tem facilidade com o aprendizado de línguas por ser um povo em grande medida poliglota. Estamos agora oferecendo um curso básico de curta duração, de aproximadamente um ano, mais dinâmico e rápido, que dará as ferramentas básicas da língua.

Realizamos pesquisa de mercado local junto a diversos cursos de línguas estrangeiras para definir valores de um curso de 40 horas. O nosso curso é o mais barato de Beirute, uma vez que a língua portuguesa não tem a mesma projeção no Líbano como outros idiomas e pelo fato de o Centro Cultural ser uma instituição governamental sem fins lucrativos. Temos seis professoras, todas com nível superior, a grande maioria na área de Letras. É uma equipe extremamente competente.

C.B: Nossa revista desse mês será sobre arte. Na medida em que o Brasil é um país continental, com vários “mini-países” dentro do nosso Brasil, como você entende a arte brasileira? Qual seria a nossa identidade? E qual é o seu pintor brasileiro preferido?

A arte brasileira desde o início do século XX está em franca expansão, desde os movimentos de vanguarda e, sobretudo, a partir do Modernismo. A arte brasileira vive atualmente um processo importante de descentralização dos principais centros urbanos. Você pode verificar nomes de destaque e criações importantes oriundas do Nordeste, da região amazônica. Muito do que antes era visto como artesanato, atualmente é considerado como produção artística genuinamente brasileira. Por exemplo, a produção artística nas cidades históricas de Minas Gerais e de Goiás, com forte influência de elementos do patrimônio local, ganham cada vez mais reconhecimento nacional e internacional. A título de ilustração, veja o caso do Antonio Poteiro (www.antoniopoteiro.com), que iniciou a carreira como artesão de potes de cerâmica – e daí o “Poteiro” do seu nome artístico. Poteiro é hoje considerado um dos mestres da pintura primitiva brasileira, tendo inclusive um quadro seu exposto na sede da UNESCO em Paris.

IRBr - Daniela Duarte

Painel de azulejos de Athos Bulcão no Instituto Rio Branco. Foto: Daniella Duarte/MRE”

Sobre meus artistas preferidos, como sou de Brasília e muito atrelado a minha cidade natal, vou citar dois nomes importantes da capital federal: Athos Bulcão (www.fundathos.org.br) e Francisco Galeno (www.franciscogaleno.com.br). Athos é um artista completo, embora muito associado à azulejaria. Sua criatividade casa perfeitamente com Brasília, pois o resultado é essencialmente geométrico como a cidade. Há muitas obras na capital que você nem se dá conta que são de sua autoria, como no metrô, em corredores de hospitais públicos, em escolas públicas, na Universidade de Brasília e até mesmo em um posto de gasolina. O painel de azulejos no Instituto Rio Branco (IRBr) é uma das obras que eu mais aprecio. Trata-se de um desenho simples, uma curva e um ponto, a partir do qual você pode derivar as letras “i”, “r” e “b” e até o logotipo da academia diplomática. Simples e ao mesmo tempo genial.

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Igrejinha Nossa Senhora de Fátima- créditos Camila Navarro

Outro artista que admiro é o Francisco Galeno, radicado em Brazlândia, cidade satélite a cerca de 50 km de Brasília. A produção do Galeno está em sintonia com a tradição construtivista brasileira de nomes como Alfredo Volpi, que também trabalha com formas geométricas, com a abstração. Mas diferentemente da geometria racional de Athos Bulcão, às vezes tida como fria, Galeno trabalha com um colorido alegre, parece brincar com as formas. Encontrobsb (13)_thumb[2]

Um dos seus principais trabalhos está exposto na Igreja Nossa Senhora de Fátima, a Igrejinha, como é conhecida pelos moradores de Brasília. Oscar Niemeyer desenhou o templo no formato de chapéu de freira; Athos Bulcão fez os azulejos externos e a decoração interna ficou nas mãos de Alfredo Volpi. O desenho original do Volpi foi destruído e Galeno foi encarregado de fazer os novos painéis.

C.B: Você nasceu na capital federal, que foi projetada por Oscar Niemeyer. Como você enxerga os trabalhos de Niemeyer em Trípoli? Você teve a sensação de estar em Brasília?

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Créditos: Adam Jayme

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Créditos Adam Jayme

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Créditos Adam Jayme

A sensação de chegar à feira internacional em Trípoli foi a mesma sensação de chegar à Esplanada dos Ministérios. A feira ocupa um grande terreno, do pórtico da entrada não se consegue ver o fim da feira, com monumentos arquitetônicos brotando do gramado. A escala me faz sentir em Brasília. Ao andar pela feira, você identifica a influência da cidade. Oscar Niemeyer foi convidado em 1962 para realizar o projeto da feira, portanto dois anos depois da inauguração de Brasília. No final da década de 1960 a construção começou, mas foi interrompida em 1975, por conta da guerra civil no Líbano. Alguns elementos estão em uso, como o Anfiteatro, parte do Pavilhão e a própria administração do centro. Mas na maior parte da feira o que se vê são elementos arquitetônicos modernos inacabados. O projeto é realmente futurístico, com estruturas gigantescas de concreto armado. Foi uma experiência muito interessante e me impressionou o estado de conservação. Esperava encontrar “ruínas modernas”, entre aspas, mas na verdade existe uma grande preocupação das autoridades governamentais locais com a conservação do bem, mesmo sem recursos para completar o projeto.

Tudo me fazia lembrar de Brasília. O Pavilhão Central lembra muito o Instituto Central de Ciências da Universidade de Brasília, conhecido como “minhocão”. O Anfiteatro, com uma elegante concha acústica similar à de Brasília, parece flutuar sobre um espelho d´água. O Teatro Experimental foi projetado em uma doma que lembra a cúpula do Senado Federal. Meu prédio preferido no complexo é o Pavilhão Libanês, que não chegou a ser terminado. O edifício possui uma elegante a colunata, que lembra o Itamaraty com toques do Palácio da Alvorada, sobre espelho d’água que reflete narcisisticamente da imagem do prédio.

C.B: A Connection Beirut tem como uma de suas prioridades desmistificar a ideia de que Líbano só vive de guerras e conflitos. Como é viver em Beirute?

Para complementar a entrevista e já que estamos falando sobre arte, não posso deixar de mencionar Inhotim (www.inhotim.org.br), em Minas Gerais, que abriga um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do mundo. Inhotim é uma grande referência no meio artístico, uma mistura de museu e jardim botânico.

Quanto ao Líbano, eu sempre digo que não escolhi Beirute, mas sim Beirute que me escolheu. A primeira vez que vim ao Líbano foi depois de uma viagem à Arábia Saudita e a segunda, para um casamento. Quando tive que sair de Paris, pensava na Tailândia, mas acabei vindo ao Líbano. As três vezes que vim para Beirute foi sem escolha racional direta e fico feliz por Beirute ter me escolhido. Desde a primeira vez que pisei na cidade, eu me senti em casa. Do ponto de vista cultural, é uma delícia trabalhar em uma cidade que possui tamanha produção criativa. Há eventos incríveis de música, moda, design, gastronomia, etc., comparáveis a outras grandes cidades espalhadas pelo mundo. Por tudo e mais, o Líbano tem algo de mágico que envolve a gente. Apesar de ter uma série de problemas, como em qualquer lugar, é aberto para o mundo. O libanês é um povo acolhedor então não poderia ser mais feliz aqui.

Por Ana Letícia Medeiros e Viviane Carvalho

por Ana Letícia Medeiros

by Viviane Carvalho

 

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