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Nossa entrevistada especial do mês de agosto é a brasileira Mona Nagib Merehbi. Filha de pais libaneses, ela é casada e mãe dedicada de 5 filhos. Mona se radicou em Trípoli, Líbano, há 11 anos atrás e nos conta um pouco de sua trajetória de São Paulo a Trípoli, seus anseios e sua visão de vida como uma mulher que vive em uma cidade sempre relacionada com notícias de violência e guerra.

C.B: Por que se mudou para Trípoli depois de ter vivido 13 anos casada no Brasil?

Sou brasileira, nascida em São Paulo e amo meu país, mas infelizmente por conta da questão da segurança e visando dar um melhor estudo para nossos filhos, eu e meu marido, que é libanês, decidimos mudar para o Líbano. Nossas famílias vivem em Trípoli e decidimos dar continuidade ao estudo das crianças no Líbano, uma vez que aqui poderiam aprender mais 3 idiomas (inglês, francês e árabe). Particularmente considero que obtivemos êxito nessa mudança, durante esses 11 anos que decidimos dar um novo rumo para nossa família. Apesar de ter uma vida equilibrada em São Paulo, com uma excelente moradia – morávamos em Alphaville-, mas estávamos sempre rodeados de seguranças e com medo da violência urbana no Brasil. Por essa razão decidimos recomeçar um novo capitulo da nossa história.

C.B: Como foi o processo de adaptação dos seus 5 filhos com a mudança para o Líbano a adaptação?

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Meus filhos não falavam nem árabe e nem inglês, já que todos foram alfabetizados em português, no Brasil. Nosso idioma em casa era e continua sendo o português. Meus filhos atualmente estão com idades entre 13 e 22 anos. Apesar de eu falar árabe, sempre falei a língua portuguesa em casa para que meus filhos pudessem dar continuidade a prática do idioma brasileiro, afinal é nossa pátria também. Coloquei meus filhos em uma escola libanesa que ensinava inglês e árabe. Foram muitas aulas particulares e diversos desafios durante o processo de aprendizagem, mas valeu a pena! Atualmente minhas duas filhas mais velhas cursam, respectivamente, o quarto e segundo ano da faculdade de Medicina.

IMG_3551C.B. Viver em uma outra nação é um desafio para muitas pessoas, em particular para as mulheres que optam por um país do Oriente Médio, com hábitos e costumes patriarcais. Como foi sua adaptação ao Líbano?

Venho de uma família de pai e mãe libaneses. Meus pais foram para o Brasil ainda jovens e eu costumava visitar minha família aqui no Líbano uma vez ao ano. Mas curtir férias e viver no Líbano são situações bem distintas. O primeiro mês foi muito difícil, adaptar-se a um novo costume e fazer novas amizades são desafios importantes. Contudo logo me adaptei e me acostumei a esse país intrigante. Amo viver no Líbano e daqui não tenho pretensão alguma de sair. Tenho muitas amizades, frequento cafés, bons restaurantes, faço academia, realizo festas e reuniões familiares, enfim, tenho uma vida completa aqui.

C.B: Quais são seus planos futuros?

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Não me vejo longe de Trípoli e muito menos retornando para viver novamente no Brasil, apesar de amar passar férias e rever a família brasileira. A questão da segurança e da violência urbana para mim é vital, assim como a qualidade de estudo dos meus filhos, que atualmente falam fluentemente 4 idiomas: inglês, francês, árabe e português. Vejo um futuro próspero para meus filhos, todos formados, possivelmente iremos abrir consultórios para minhas filhas médicas e dar seguimento aos nossos negócios no Brasil.

C.B. Como é viver em Trípoli?

Vivo em Trípoli há 11 anos, muito bem instalada. Temos um imóvel em Beirute também, porém é mais para facilitar a vida das minhas filhas que fazem faculdade lá e evitar o trânsito caótico. A questão de conflitos de guerra é mais anunciada pela mídia do que propriamente ocorre na região. Hoje em Trípoli, por exemplo, os cafés estão lotados de pessoas até mesmo de madrugada. Jamais fugi ou mesmo me isolei em outro lugar. É claro que já ocorreram conflitos aqui, mas não próximo do centro de Trípoli. Da janela da minha casa a paisagem bucólica sempre foi a mesma, com as pessoas nas ruas, vivendo suas vidas e seguindo. Apesar de ouvir notícias de que o complexo havia estourado, nunca presenciei nenhum conflito. Aliás, o que enxergo é tranqüilidade, as pessoas andando pela madrugada nas ruas sem medo. Muitas vezes durmo com a porta aberta de casa. Aqui se você esquecer o celular em cima da mesa de um estabelecimento comercial, quando voltar estará no mesmo lugar. Trípoli possui um comércio independente de Beirute. Lojas de ouro vindos do Egito que são simplesmente sensacionais. Grandes marcas internacionais tais como Lacoste, entre outras, também estão na cidade de Trípoli. A maioria da população que mora aqui possui mais de um imóvel, sempre existe a possibilidade de ter uma residência na montanha ou na praia. Recebo muitas visitas em casa, que é um hábito do povo libanês e estamos sempre fazendo reuniões familiares.

C.B: Muito se fala sobre a crise econômica brasileira. Como os negócios da família estão caminhando?

Eu e meu marido, como bons filhos de libaneses, possuímos comércio. A tradição do negócio deve estar no sangue libanês. Possuímos negócios no Brasil e no Líbano, o que obriga meu marido a viajar ao Brasil por 3 a 4 meses por ano. Nós possuímos uma franquia da Western Union, uma loja de tabaco e um escritório de câmbio em Trípoli, o que sempre nos deixa ocupados.

C.B Como é a comunidade brasileira em Trípoli?

Temos uma grande representatividade de brasileiros em Trípoli. A maioria é constituída de brasileiros casados com libanesas que ainda possuem negócios no Brasil. Apesar da existência da comunidade brasileira por lá, ainda não existem café brasileiros ou mercados. Mas durante a Copa do Mundo assistíamos aos jogos juntos sempre, com muita alegria e entusiasmo natural do povo brasileiro. Aliás, tenho essa missão dentro dos meus anseios, penso em contribuir para a descentralização da cultura brasileira para Trípoli, uma vez que o deslocamento Trípoli – Beirute é longo e demorado devido ao fluxo intenso do trânsito. Tenho esses projetos em mente, para contribuir com a divulgação da nossa cultura e língua em Trípoli. Poderíamos ter uma opção de café brasileiro, incluindo a gastronomia, estudo do português, aulas de samba e projetos culturais voltados para a população de Trípoli.

C.B. Você faz parte do Conselho de Cidadãos Brasileiros em Beirute. Como tem contribuído para a comunidade brasileira?

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Embaixador Jorge Kadri e Mona

Estou no Conselho há quase 2 anos e tenho sempre esse anseio de ajudar ao próximo. Contribuir com a comunidade brasileira tem sido o papel vital do Conselho. Sendo assim, o conselho já contribuiu com o Setor Consular da Embaixada Brasileira em Beirute, ajudando no preenchimento dos documentos necessários para atendimento ao público, assim como tirando dúvidas, uma vez que o Setor Consular está sobrecarregado de serviço.

C.B. Para finalizar, qual seria a mensagem que você daria para as pessoas que tem receio de mudar de país?

Eu diria que a grande diferença entre ser feliz num lugar ou no outro dependerá da forma como você encara o “novo”. Mente aberta e menos desconfiança contribui para uma melhor adaptação a situações desconhecidas. Então, corra atrás da sua felicidade: procure fazer contatos, deixando o rótulo e o preconceito de fora, seja aberta para o mundo, mas tenha sempre reservado para você um horário na sua agenda, para se realizar como pessoa, independentemente de casa, marido, filhos ou problemas diários. As dificuldades virão, mas se você encarar toda barreira como parte do enriquecimento pessoal com certeza seu sucesso será apenas uma conseqüência.

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Mona e Viviane Carvalho

Por Viviane Carvalho

by Viviane Carvalho

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