Gabriel Benedito Issaac Chalita, mais conhecido como Gabriel Chalita, nasceu em Cachoeira Paulista, 1969, Estado de São Paulo, de origem libanesa, da cidade de Bkaa Kafra, Líbano Norte.Estudou Direito, Filosofia e Ciências Sociais e é doutor em Direito, Comunicação e Semiótica (ciência geral dos símbolos) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde também leciona entre outras instituições acadêmicas. Gabriel é filósofo, professor, acadêmico, político e atualmente é o Secretário de Educação do Município de Sao Paulo. Ele conta a Connection Beirut sobre seus projetos, seu orgulho de suas raízes libanesas e sobre o lançamento do livro ” Sócrates e Thomas More: cartas imaginárias”,no idioma árabe lançado na última Feira Internacional do livro árabe de Beirute em dezembro de 2015.

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Gabriel Chalita no Vale do Bekaa

C.B. 1)Sabemos que a educação é uma das pautas de prioridade de todo governo. Sendo o senhor, o secretário de Educação do Município de São Paulo, com um total de  quase 1 milhão de alunos, como o senhor recebeu o convite do prefeito Haddad para ficar a frente de tão importante Secretaria?

Fiquei muito honrado com o convite do prefeito Fernando Haddad em cuidar de uma rede tão grande e tão complexa como a rede municipal de São Paulo. São Paulo é uma cidade rica e pobre, cheia de oportunidades e de problemas. A educação é, sem dúvida, a política pública mais importante para que possamos dar um ponto de partida semelhante a todos os nossos cidadãos. A educação é a base, é o alicerce para a construção de uma história sólida, correta. Se ele tiver a base o resto fica mais fácil.
Já fui Secretário de Educação do Estado de São Paulo e, graças a Deus, com uma equipe muito competente, consegui desenvolver um bom trabalho. Sou professor e isso facilita muito na relação com os nossos professores.  Os nossos desafios são os de garantir uma educação de qualidade para todos e para isso precisamos valorizar os professores, construir um currículo que atue no potencial dos alunos e envolver as famílias na vida escolar de seus filhos. Se sonhamos com uma sociedade de paz, se nossos utopias se voltam para um amanhã mais harmonioso, e na educação que precisamos investir.

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Gabriel Chalita durante o lançamento do livro em Beirute

C.B. 2) Sabemos que o senhor possui raízes libanesas, o senhor poderia nos contar a trajetória de sua família, e como o senhor enxerga a influência libanesa em sua carreira e como é a sensação de poder visitar e conhecer seus parentes no Líbano?

Meus avós paternos são de Baakafra, a mais alta cidade do Líbano. Fiquei emocionado ao viajar pelas montanhas e chegar à terra deles, terra de São Charbel. Eles vieram para o Brasil como tantos outros em busca do sonho de viver em paz. E aqui fizeram as suas histórias. Quanta garra, quanta coragem desses imigrantes. Sem conhecer a nova terra, sem falar a língua, sem entender os costumes mas uma imensa capacidade de trabalho fizeram suas histórias. Meu pai falava com orgulho da qualidade dos seus pais. Dos ensinamentos. Dos valores. Eu sempre digo que para mim o povo libanês tem ao menos três grandes qualidades: a força de trabalho, a coragem e o amor. O amor é uma marca da nossa gente. As festas. A comida, sempre em quantidade generosa, o acolhimento. Tenho orgulho das minhas raízes libanesas. Da coragem e dos sonhos dos meus avós. Dos nobres ensinamentos dos meus pais. E de prezar tanto a família. Já estive três vezes no Líbano. E cada vez que vou prometo a mim mesmo que voltarei. É sempre uma experiência nova beber na água que alimentou a origem do que hoje eu sou.

 

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Gabriel Chalita e sua família libanesa

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C.B. 3) Sabemos que o Líbano é um país onde o ensino é o orgulho nacional. Aqui se fala três idiomas fluentes: inglês, francês e árabe. Como nós, brasileiros, poderíamos implementar um sistema bilíngue para facilitar ainda mais a inserção dos profissionais no mercado global de trabalho? E como poderíamos realizar mais projetos de cooperação entre essas duas nações fraternas Brasil e Líbano do ponto de vista educacional?

Fiquei muito bem impressionado com a educação no Líbano. Muito mesmo. Conversei com crianças que falam fluentemente árabe, inglês e francês. Alunos de escolas públicas. No meu trabalho como secretário, tenho feito um enorme esforço para melhorar a qualidade da educação e para garantir uma educação de qualidade para todas as crianças. Só no ano passado criamos mais 50 mil novas vagas para a educação infantil. Além de novos projetos que visam a essa qualidade. Hoje, todas as nossas escolas têm aulas de música, por exemplo. É importante ampliar o conceito da educação. Precisamos contemplar as habilidades não cognitivas. A aprendizagem requer um trabalho que vai além. Trabalhar a dimensão social e emocional garante a formação de um indivíduo mais equilibrado e mais disposto a conviver bem.
Parcerias com o Líbano são sempre muito bem-vindas. Nessa última viagem, visitei os ministros da educação Elias Saad, da cultura Raymond Araygi  e das relações exteriores, Gibran Bassil. Foram muito receptivos. Uma troca de experiências seria ótimo para os dois países. Afinal, no Brasil, encontram-se libaneses em todos os cantos. O que é muito bom.

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C.B. 4) Sabemos que o senhor acompanhar os projetos educacionais e culturais entre Brasil e o Líbano, desde a importante missão durante a viagem do Vice-Presidente Michel Temer ao Líbano em 2011, assim como o senhor tem acompanhado a Conferência da Diáspora Libanesa. Como o senhor enxerga as mudanças no Líbano desde a sua primeira chegada em solo fenício?

Vejo com entusiasmo. Como filho do Líbano, torço muito para que essa terra abençoada, que já sofreu com tantas guerras, seja uma terra de paz. As guerras destroem os futuros de tanta gente. Não é possível que não encontremos outros caminhos para negociações que minimizem as diferenças que possam existir entre ideologias, religiões, posicionamentos políticos entre outros. Precisamos evoluir. A vida não pode ser colocada em risco por nenhum outro interesse. Fiquei feliz em ver libaneses de todos os cantos no Líbano celebrando o reencontro com as origens e partilhando o orgulho da terra de onde viemos.

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Viviane Carvalho e Gabriel Chalita no lançamento de seu livro em Beirute

C.B.5) Qual foi a emoção em ter um livro seu lançado no Líbano?

Comecei a escrever aos 12 anos. Já escrevi 75 livros que venderam juntos mais de 10 milhões de exemplares. Lancei livros em muitos países que foram traduzidos para diversos idiomas. Mas confesso que a emoção de ter um livro meu lançado no Líbano foi diferente. Fiquei imaginando a simplicidade dos meus avós, o esforço, as tristezas, os sonhos também. Fiquei imaginando o meu pai, que tinha tanto orgulho das suas origens. Acredito em Deus e acredito na vida que não se encerra aqui. Eles estavam comigo em Beirute junto com tantos amigos nesse lançamento. Espero lançar outros livros meus em árabe. Faz bem para minha alma.

Por Viviane Carvalho

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