Dr. May-2

 

 

Nos últimos 25 anos, May Chidiac, jornalista libanesa, quebrou barreiras da tradição numa sociedade patriarcal. Aos 14 anos, Sra. Chidiac casou-se e após 40 dias se arrependeu e buscou a anulação de seu casamento. Essa mulher com uma personalidade extremamente forte, foi uma pioneira no Líbano e no Oriente Médio. Ela aos 20 anos já graduada em jornalismo, solicitou a anulação de seu casamento perante o tribunal. E desde então, Sra. Chidiac distinguiu-se como uma jornalista crítica em um país devastado pela guerra.

 

Sra. Chidiac recebendo prêmio SEA

Sra. Chidiac, 2a à esq, durante recebimento do prêmio SEA

Sra. Chidiac tornou-se âncora e correspondente de guerra na LBC (Lebanese Broadcasting Corporation). Uma mulher destemida e valente, que relatou, sem medo da linha de frente da guerra civil no Líbano, e fez seu nome na comunidade de elite jornalística libanesa.

Sra. Chidiac era ameaçada de morte, mas nunca foi motivo para interromper seu trabalho ou sua paixão para lutar contra a opressão.

E infelizmente em 2005, ela foi a primeira mulher atacada e gravemente ferida por motivo político por um carro-bomba no Líbano. Ela perdeu sua perna esquerda acima do joelho e seu braço esquerdo foi amputado devido a lesões graves. Ela foi submetida a 33 cirurgias e teve uma experiência de reabilitação exaustiva, mas nunca perdeu a esperança ou a força para ser a voz do povo.

Sra. May Chidiac recebendo o prêmio Phoenix.

Sra. May Chidiac recebendo o prêmio “Le Prix”

Sra. Chidiac relata que a vontade de viver e lutar por seus ideais não se desvencilharam dela, nem sequer quando ainda estava no hospital aguardando a cirurgia entre a vida e a morte, onde ela já fazia planos e traçava metas para quando se reabilitasse, uma vez que seu cérebro e sua fala ainda estavam perfeitos. E essa mulher, guerreira e desbravadora que aos 40 anos de idade, lutou por sua vida mas sem deixar de acreditar no seu objetivo: lutar pelo Líbano.

E em julho de 2006, dez meses após esta tentativa de assassinato, May Chidiac estava de volta ao ar para o talk-show em horário nobre, mesmo por muitas vezes sentindo dores e desconfortos gerados pela amputação de seus membros. Sra. Chidiac, uma mulher vaidosa como a grande maioria das libanesas, aprendeu a lidar com a nova realidade de gravar seu programa de TV semanal, e realizar cirurgias de reconstituição e reparação concomitantemente. Mas trabalhar é um verbo que essa jornalista tem realizado com muito sucesso.

Após 3 anos do acidente, Sra. Chidiac finalizou seu PHD em Ciências da Informação e da Comunicação pela Universidade Pantheon Paris II Assas. Parar é uma palavra que Sra. May Chidiac não conjuga, ela também fundou a Fundação May Chidiac , uma organização comprometida com a educação, bem-estar social e os direitos humanos com ênfase nos direitos das mulheres.

Sra. Chidiac no lançamento de seu livro

Sra. Chidiac no lançamento de seu livro “Le Ciel M’attendra” em 2007

 

Ao longo de sua carreira, Sra. Chidiac recebeu inúmeras honras internacionais, reconhecimentos e distinções, incluindo “Le Prix de lá Francophonie pour lá Liberté d’expressão,” Prêmio UNESCO “Guillermo Award Cano / UNESCO para a Liberdade de Expressão” e muitos outros.

Em 2007, ela publicou seu livro auto-biográfico “Le Ciel M’attendra” nos idiomas francês, alemão, italiano e árabe, que foi premiado com o “Prix Vérité” (Prêmio Verdade) em Le Cannet, França.

E à frente da Fundação May Chidiac, Sra. Chidiac promoveu a conferência:”Women on the Front Lines” (WOFL),  que visa realizar o empoderamento da mulher em solo libanês, que tem sido sucesso no Líbano com a participação de diversas autoridades inclusive da esposa do primeiro Ministro libanês Sra. Tammam Salam. A conferência inclui debates sobre o papel das mulheres na diplomacia em todos os níveis: diplomacia, de assuntos internos, a política externa, questões civis, direitos humanos, e bem-estar social, além de trazer a visão das mulheres no jornalismo e na indústria cinematográfica, demonstrando que não existem barreiras para as mulheres, inclusive com a participação da Sra. Nadine Labaki, cineasta libanesa.

Sra. Chidiac durante discurso de abertura da Conferência WOFL em 01/03/2016 em Beirute.

Sra. Chidiac durante discurso de abertura da Conferência WOFL em 01/03/2016 em Beirute.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sra. Chidiac luta pela importância em acreditar na capacidade e competência feminina nos cargos de destaque no meio político da sociedade libanesa, contudo ela afirma que o problema para a conquista dos altos cargos seria a mentalidade da própria sociedade, que não acredita no poder da mulher libanesa, até mesmo das próprias mulheres, que não aceitam enxergar uma outra mulher numa linha de progresso, que não seja ela própria, e por muitas vezes prefere dar espaço a um homem em vez de presenciar uma outra mulher em destaque, tendo em vista a concorrência da cultura libanesa.

Sra. Chidiac acredita no empoderamento feminino na terra dos fenícios. “As mulheres libanesas são emancipadas e abertas em comparação a outras sociedades do Oriente Médio, elas se identificam com outras nações progressistas, e temos muitas mulheres em cargos elevados em bancos e indústrias, uma vez que durante a guerra muitos homens tiveram que se exilar do país e muitas mulheres ficaram a frente dos negócios, tendo êxito em seus empreendimentos”.

Quando perguntamos qual seria a solução para o empoderamento das mulheres na sociedade libanesa, Sra. Chidiac acredita que apesar das libanesas serem a grande maioria nas universidades, e assim como na população, buscando cada vez mais alcançar um alto nível educacional, elas tem conseguido encontrar seu lugar ao pódio no meio empresarial, contudo o problema é sua representatividade política e representação pública.

May chidiac_tcm4-6648_w735_h413.jpg-2-3Para a solução desse problema, Sra. Chidiac acredita no sistema de cotas de no mínimo 30% das vagas de representação política destinadas ao público feminino. Porém a totalidade da representação feminina no poder legislativo nao ultrapassa 3% de representação na assembleia parlamentar, como poderia ser aprovada tal lei, que iria prejudicar os atuais 97% de deputados eleitos, que iriam por resultado inevitável perder 27% de seus cargos. Sra. Chidiac complementa:”A discriminação tem ocorrido desde o parlamento, como as mulheres podem conquistar seus direitos, se não se tem leis aprovadas para elas?”

Não é fácil conquistar esse desafio. Porém Sra. Chidiac acredita no Líbano, sua pátria, que demonstra o poder de renascimento, como a Fênix, que renasce das cinzas, assim como explica que aqui se encontra a raiz da humanidade, terra de toda civilização.

Essa mulher forte e determinada, acredita no poder de cada mulher, que deve não somente contar com sua beleza, apesar de ser extremamente feminina, contudo ela acredita em sua inteligência, persuasão, no seu trabalho e em si mesma.

Ela afirma que “se você acreditar em si mesma, e provar que você tem poder, e demonstrar aos outros que você é merecedora da confiança deles, você irá conquistar o sucesso, uma vez que as mulheres são mais sólidas do que homens. Quando uma mulher quer provar aos seres humanos sobre sua capacidade, somos diferentes dos homens, podemos ser afáveis e aptas a solucionar problemas sob diversos aspectos simultaneamente. Isso faz parte da natureza feminina e somos únicas.”

Sem dúvida, Sra. May Chidiac é uma mulher com pulso forte, e uma Fênix, que nos prova que viver é lutar não só contra os outros, mas vencer suas próprias dificuldades e concorrer consigo mesmo nas suas falhas e fracassos. Sem dúvida, um exemplo de vida e resiliência!

 

Por Viviane Carvalho

 

 

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