Naima Yazbek é uma verdadeira batalhadora. Determinada, a brasileira com origem libanesa começou a dançar desde nova.

Fernanda Yazbek Pereira, é seu nome de nascimento, tendo descendência portuguesa, espanhola e predominantemente libanesa. Sua paixão pela dança árabe a levou a países diferentes e a permitiu deixar a tradução e a psicologia para poder se dedicar à dança e à música. Este ano ela celebra 20 anos de Dança Oriental.

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Naima Yazbek em apresentação na Festa do 1o ano da Connection Beirut(Foto Hassan Ammar)

Em 2009, Naima veio ao Líbano buscando suas raízes e para ver a dança, música e língua locais. Ficou surpresa ao ser convidada para ensinar samba (na época, o Centro Cultural Brasil Líbano não existia ainda). Se apresentou jogando capoeira-uma de suas paixões-, samba, frevo, maculelê e outras danças brasileiras com o grupo Bailando e outros grupos locais.

Depois voltou a trabalhar com a dança oriental e foi requisitada para se apresentar como cantora juntamente aos músicos locais, sendo talvez atualmente a única cantora brasileira com carreira no Líbano.

Naima é uma professora consciente, prepara suas aulas com afinco, muitas práticas e técnicas aperfeiçoadas em muitos anos de profissão. Mas foi no Líbano que ela se tornou uma verdadeira artista: dançarina do ventre, passista e cantora. Confira a entrevista e saiba porquê você não pode perder os shows dessa brasileira, assim como suas aulas administradas no Centro Cultural Brasil Líbano!

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Connection Beirut: Como e quando você começou a praticar a capoeira?

Naima Yazbek: Em 1991, comecei a praticar capoeira em São Paulo. Ao me formar em Psicologia me especializei em integração Psico-física e Psicoterapia existencial-fenomenológica. Apesar de não exercê-la formalmente, acabei utilizando minha formação em aulas de Capoeira, que ministrava em uma comunidade carente no Brasil. A capoeira é luta, jogo, dança, esporte, auto-defesa, música e grande instrumento de arte-educação.

 

ALF_0467Mais tarde, no Líbano, através da dança oriental e danças diversas, passei a trabalhar com crianças especiais, refugiados sírios e mais recentemente com mulheres sobreviventes de câncer de mama, sempre tentando fazer das aulas de dança, instrumentos terapêuticos e educacionais. Acho muito importante que eu e outros professores libaneses ensinem cada vez mais, para as mulheres libanesas a dança oriental, pois esta dança resgata muitas coisas boas à saúde feminina, à auto-estima e uma herança cultural, que foi reprimida devido às leis patriarcais e o machismo da sociedade, às vezes ligada à religião ou à mentalidade vigente.

 

Connection Beirut: Como surgiu a dança oriental na sua vida?

Naima Yazbek: Fiz atividades corporais desde os 5 anos de idade… Primeiro ballet moderno, natação, ballet clássico e jazz; depois quando entrei na faculdade vieram a capoeira, a dança afro-contemporânea e em paralelo a dança oriental, o teatro e o canto Popular.

Em 1996, comecei a estudar e a me apresentar com a dançarina e pesquisadora da cultura e dança oriental, Sra. Meriti Aton, em São Paulo. Em 2001, participei de um projeto na Alemanha com jovens artistas de vários países chamado “Interkuntz”, que visitava escolas, teatros, igrejas e centros culturais, fazendo shows e cursos contra racismo e preconceito. Viajei pela Alemanha, Itália e Inglaterra.

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Em 2002, iniciei uma série de visitas ao Egito (já foram 10 até hoje), onde fiz turismo, pesquisas, aulas de música e Danças Orientais egípcias. Outras vezes fui à trabalho, fazendo shows públicos ou particulares.

Vivi na Espanha onde dei aulas e me apresentei também em 2005.

A dança oriental foi se tornando a minha grande paixão, que ao longo destes 20 anos, foi se aprimorando e sendo minha meta maior. Desde que cheguei ao Líbano, tive a chance de ensinar muitas mulheres, crianças e alguns homens também, a me apresentar com incríveis artistas no teatro, TV, em filmes e videoclipes.

 

Connection Beirut: Sabemos que você é a vocalista da banda libanesa Xangô, que toca exclusivamente MPB-Jazz no Líbano. Como surgiu esse projeto?

Naima Yazbek: Em 2010, conheci Adel Minkara, um guitarrista libanês que que foi viver e
estudar em São Paulo, e voltou a Beirute encantado com a Bossa Nova e a MPB. Logo que o conheci,    começamos a ensaiar juntos. Em seguida fui convidada pela Embaixada Brasileira no Líbano, por iniciativa da Sra. Rose Marie Maasri e apoio do Ministro Roberto Medeiros, a cantar em noites de cultura brasileira em espaços públicos, em Ghazi (Vale do Bekaa), Byblos e em Downtown Beirute. Buscamos mais músicos e assim começou a surgir uma banda.

 

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Banda Xangô

 

Em 2012, Adel organizou a banda Xangô. Desde então nos apresentamos em pubs e clubs tendo muita aceitação. No final do mesmo ano, fui convidada pelo músico e compositor Ziad Rahbani, filho da famosa cantora Fairouz, a cantar músicas de Tom Jobim, Baden Powell, além de composições e versões dele próprio. Trabalhei com ele por quase 3 anos, cantando e eventualmente dançando. Tive com ele a experiência de me apresentar para grandes platéias em alguns shows como o Cairo Jazz Festival em 2013, onde em plena revolução no Egito, tivemos um público de mais de 4000 pessoas, foi emocionante.

Conheci a Roberta Meireles e Nassib Khoury em 2009. Mais tarde passei a fazer parte do grupo deles, “Passos Alegres”, onde fazemos shows junto a outros artistas brasileiros e libaneses.

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Grupo Passos Alegres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Roberta é capoeirista, dançarina, percussionista e é, como eu, uma mulher e artista brasileira vivendo no Líbano, já fizemos várias parcerias de dança e música. Com ela tenho aprendido e participado de um grupo de batucada chamado “Rubra Rosa”, constituído por mulheres. Antes, junto ao percussionista Kevin Safadi (também integrante da banda Xangô) criou o grupo de Batucada brasileira “Segundo Bloco”, único no gênero no Oriente Médio também.

 

Connection Beirut: Sabemos que o Líbano é um país conservador e paternalista. Como é trabalhar no país dos Cedros?

Naima Yazbek: Desde que cheguei houveram mudanças na sociedade libanesa, uma certa abertura, mas para haver uma real mudança necessitamos de algo maior. Um exemplo é a questão da nacionalidade libanesa, que só é transmitida aos descendentes pelo lado do pai ou avô paterno libanês. No meu caso, não posso ter a cidadania libanesa mesmo tendo origens libanesas de ambos os lados, não posso herdar tal nacionalidade pela minha mãe e tampouco pelo lado do meu pai, que tem origens libanesas por parte de mãe, e a lei não muda por questões político-religiosas.

1512552_10202213951249480_6409731698437457234_nMuitas vezes os estrangeiros não possuem uma solução de residência permanente no Líbano, a não ser através de casamento, e neste caso a meu ver a lei é ultrapassada, injusta não permitindo direitos para o cônjuge, filhos, etc…

O meu maior problema aqui é ser registrada na categoria de trabalho de artista e “Dançarina”, pois tal categoria é controlada com exames de HIV rotineiros e taxas altíssimas obrigatórias, estigmatizando a profissão, associando-a à prostituição e tratando-nos como residentes temporárias, através do sistema Kafala de trabalho.

Esta questão me mobilizou junto à outras questões de faltas de direitos civis no Líbano e principalmente para as mulheres. Passei a ter uma postura ativista. Já participei de muitas entrevistas e documentários mostrando meu trabalho e a vida aqui. Quando falei deste assunto foi gerada enorme polêmica. Infelizmente as mudanças são lentas, é necessária ainda muita luta pelos direitos civis. Contudo, acredito que o povo libanês é um povo forte e que sabe se reerguer, e as mudanças por que tanto esperamos chegarão a esse país que tanto admiramos e onde amamos viver!

Por Viviane Carvalho

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