Dom Pedro II foi um soberano culto e um grande admirador da cultura oriental, chegando mesmo a estudar várias línguas como o árabe e viajou para o Levante em 1871, Egito e em 1876, ele desbravou o Líbano, Síria, Palestina e novamente no Egito. Ele dizia que eram viagens de turismo e conhecimentos científicos, portanto viajava com seus próprios recursos e não os do Império.

Em 11 de novembro de 1876 D. Pedro II avistando o Líbano, a partir do mar, escreveu ao seu amigo, diplomata e escritor francês Joseph Gobineau:

“A partir de hoje começa um mundo novo. O Líbano ergue-se diante de mim com os seus cimos nevados, seu aspecto severo, como convém a essa sentinela da Terra Santa”.

Caderneta de viagem escrita a tinta de D. Pedro Ii. Museu   Imperial de Petropolis

Caderneta de viagem escrita a tinta de D. Pedro II Crédito: Museu imperial de Petrópolis

O Imperador Dom Pedro II nesta viagem era acompanhado por sua esposa D. Tereza Christina Maria e uma pequena comitiva. Chegaram ao porto de Beirute no dia 11 de novembro de 1876 no navio “Aquila Imperial”. Visitou Beirute e no dia 14 de novembro, D. Pedro II a cavalo em companhia de sua comitiva foi acompanhado por beduínos, que levavam em suas lanças, bandeirolas verde-amarelas e subiram a estrada de Damasco em direção ao Vale do Bekaa. Em seu diário, Dom Pedro II escreveu:

14 de novembro de 1876.

Partida de Beirute às 4 da madrugada [para Baalbeck- Vale do Bekaa e Damasco]. Bela es­trada de onde se vê a princípio o alto das montanhas (a cordilheira do Monte Líbano), a ponta onde está a cidade estendendo-se; de um lado a costa para o norte na direção de Trípoli e do outro para o sul na direção de Saida (Sidon) e Caifa [Haifa].

  1. Pedro II tinha então 51 anos de idade, e mostrou boa forma para enfrentar os desafios da longa viagem. Percorreu todo o trajeto montado em uma égua branca. A estrada cruzava o Monte Líbano, subindo a mais de 1500 metros de altitude, época de inverno no Líbano. No cume do Mezher o imperador descreve:
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Hospedaria Brun, Vinícola Domaine des Tourelles, Chtaura em 1886. Créditos: Domaine des Tourelles

“Atravessou-se em Mezher o ponto mais elevado da estrada, a 1.515 m no nível do mar. Felizmente, a chuva tinha cessado clareando o tempo de modo a gozar da vista magnífica da planície de Bekaa. 

“Em Ch’tora [Chtaura] a 905 m de altura, houve o almoço [na hospedaria Brun, vinícola Domaine des Tourelles, ainda existente] logo e às 11h20’ separou-se a companhia, indo eu e os que deviam igualmente montar a cavalo ainda de carro até Malakah [Maalaka, cidade perto de Zahle] e os demais se­guindo para Damasco”.

  1. Pedro II descreve no diário a emoção com que chega a Baalbek:

“Daquele lugar [Chtaura] foi a cavalgada por uma interminável planície ladeada à esquerda pelo [Monte] Líbano e à direita pelo Ante-Líbano, até Baalbeck. Desde Ch’tora [Chtaura]….”

“Choveu bastante de tarde, mas a entrada nas ruínas de Baalbeck à luz de fogaréus e lanternas atravessando por longa abóbada de grandes pedras, foi triunfal e as colunas tomavam dimensões colossais”.

Templo de Jupiter

Templo de Júpiter, Baalbeck Créditos: Fouad Debbas

O imperador dormiu numa barraca montada nos meio dos templos de Júpiter, Baco e Vênus, os quais, logo no outro dia de manhã começou a visitar e escreveu em seu diário:

“Antes das 6 da manhã, vesti-me e fui correr as ruínas…. Saindo de Baalbeck, onde deixei meu nome com a data na parede do fundo do pequeno templo (templo de Baco), está cheio de semelhantes inscrições, lendo-se logo depois da entrada estas palavras – Comme le monde este bête!…”

“À distância de 1/4 de hora a cavalo parei para examinar a pedreira e lá medi uma massa de pedra quase toda faceada para obra, de mais de 21 m de comprido, 4 de largura e uma altura, que só com escada poderia ser medida. Segundo um cálculo que li deve pesar 1.200.000 kg. Uma quase igual já disse ter visto nas muralhas de substituição do grande templo”.

“Reparei melhor a planície, que apesar de coberta de seixos, é aproveitada para trigo e vinhas sobretudo. Perto de Baalbeck nasce o antigo Orontes que vai banhar Antioquia… A noite passada encheram-se os cabeços dos montes de neve e que belo efeito produziram, vistos do fundo do grande templo, ou por entre as seis colunas”

[Ainda no dia] 15 de novembro de 1876. “Almocei nas ruínas [de Baalbek] e parti às 11. Cheguei a Malakah [Maalaka, Líbano] às 5. Vim por caminho um pouco mais curto. Mostraram ao longe do lado esquerdo nas faldas do Ante-Líbano a aldeia de Nabá-schid [Nabi-Chi], onde um ponto branco é o túmulo de Adão para esta gente. Reparei melhor para a planície que apesar de coberta de seixos é aproveitada para trigo e vinhas, sobretudo”.

“Jantei em Maalakah [perto de Zahle na época]e tor­nando a caminhar de carro às 7 só cheguei a Damasco às 3 da madrugada. Cho­veu de tarde menos que ontem e a noite, ao chegar a Damasco, estava estrelada e as nuvens escuras não se enrolavam mais nos cimos das montanhas. Comprei em Baalbeck algumas moedas aí achadas…”.

         Assim passou D. Pedro II pelo Vale do Bekaa durante o império otomano e ficou impressionado pelo vale, montanhas, povo e ruínas arqueológicas desta região, que no passado foi chamado de Celeiro Romano e que ainda hoje é a grande fonte de riqueza agrícola do Líbano, e de onde emigrou muitos libaneses para o Brasil e que aponto D. Pedro II como o divulgador do Brasil no Líbano. Ele incentivou a emigração para o Novo Mundo. Também no Bekaa está hoje, grande parte da comunidade “brasilibanesa” (binacionais brasileiros-libaneses) no Líbano, estimada a 15 mil indivíduos em todo o território libanês.

Livro fonte – Roberto Khatlab – As viagens de D. Pedro II : Oriente Médio e África do Norte, 1871 e 1876. Editora Benvirá (Saraiva). São Paulo, 2015. O Diário original pertence ao acervo do Museu Imperial (Ibram/MinC), Petrópolis, RJ, Brasil.

Por Roberto Khatlab

 capa do livro

 

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