O Líbano, como sempre, me surpreende. Em abril deste ano, por conta de um projeto para
a gestão do lixo, passei uma semana em Beirute e arredores para entender a fundo esta crise no
país. Nesses oito dias, conversei com diferentes organizações, acadêmicos e membros do
governo federal, mas o que descobri foi muito além das minhas expectativas.
Está nascendo um Líbano construído pelas pessoas, a partir do empreendedorismo tecnológico, que quer resolver, o mais rápido possível, as principais questões estruturais do país.
Para entender a crise do lixo que se arrastava por oito meses no Líbano, eu contei com o
apoio de pessoas incríveis, como o professor brasileiro Roberto Khatlab, da universidade USEK –
Holy Spirit University of Kaslik, que me conectou com acadêmicos e organizações que estão
desenvolvendo seus próprios projetos para resolver, ainda que parcialmente, um problema que,
se não resolvido rapidamente, pode acarretar em severas consequências para a saúde da
população libanesa e para a vida do meio ambiente, tão rico e tão único no Líbano.

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Não esperava que fosse ver tantas boas iniciativas em pouco tempo. Uma delas foi a Zero
Waste Act, uma empresa com fins lucrativos que baseia seu modelo de negócios na coleta de lixo
reciclável de empresas e de pessoas físicas, e faz todo o trabalho de separação e venda do
produto para a indústria, que por sua vez utiliza o material para sua cadeia de fabricação. É um
negócio que se sustenta financeiramente, ao mesmo tempo em que entrega para a comunidade
local uma solução, ainda que em baixa escala, para o problema do lixo urbano.
Outra visita muito interessante foi na própria USEK, onde conheci o projeto local para
conscientizar o público da universidade a separar o lixo reciclável do lixo orgânico, além de ter um
processo para a separação e descarte responsável do material coletado. Durante o almoço, notei
placas penduradas no teto do restaurante e também nas paredes, anunciando o início da semana
empreendedora. Foi aí que comecei a notar que havia um movimento emergente de jovens
talentos que querem pensar soluções para criar negócios novos e rentáveis, ao mesmo tempo
que resolvem um problema social.

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Mas a maior das descobertas, nesse país que eu tenho tanto apreço e admiração, foi o
Distrito Digital de Beirute, localizado na região de Bachoura, no centro da capital. Prédios antes
destruídos pela guerra agora estão dando lugar a centros de inovação e espaços de co-working.
Empresas como Uber e a aceleradora Arabnet, de Dubai, estão sediadas lá, além de outras
startups, como a Eduware, de educação à distância.
Essa descoberta me deixou em êxtase. Depois de uma imersão sobre um problema que
tanto tem incomodado os libaneses- a crise do lixo,ter conhecido este movimento empreendedor digital no Líbano foi olhar para um grande holofote no fim do túnel, que parecia infindável à primeira vista. Essa constatação fortaleceu ainda mais a minha crença na atitude empreendedora como propulsor para as economias emergentes no mundo, principalmente aquelas imersas em crises políticas, econômicas e sociais, como o próprio Líbano e também o Brasil.

Dizem que há oportunidades na crise. No Líbano, em meio a crises sociais e políticas, eu vi mais do que oportunidade: eu vi ação. E que essa ação, em breve, transforme esse lindo país em um gigante da indústria tecnológica, ensinando outras nações, principalmente as suas vizinhas.

O Líbano, além de me surpreender e me ensinar a cada visita, reforça em mim que a resposta para a mudança não está na luta armada, na caça às bruxas ou nas diferenças de ideologia e credo: está em pensar e em fazer diferente do que estava sendo feito até então.

É sempre no Líbano que aprendo a ser alguém que eu nunca imaginava ser.

Maiores informações :

Zero Waste Act: http://www.zerowasteact.com/

Beirut Digital District: http://beirutdigitaldistrict.com/

por Daniel Merege

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