Em um mundo onde o conflito é cada vez mais presente, falar sobre segurança implica em aceitar que não existe lugar absolutamente seguro para se viver. Atentados terroristas não são mais uma realidade apenas descritas nos noticiários diários, mas parte da rotina de qualquer pessoa que transita pelo mundo como turista ou a trabalho. Entretanto, muito embora o medo de estar presente exatamente no local e na hora em que um atentado terrorista ocorra faça parte da dinâmica do mundo contemporâneo, não podemos esquecer que a violência urbana, em muitos lugares, pode provocar mais danos e vítimas do que a imprensa costuma noticiar.

 

A maioria dos brasileiros residentes no Líbano certamente já ouviu de amigos que moram no Brasil perguntas sobre o tema da segurança no país. Mas será que é realmente perigoso morar no Líbano? Os países do Oriente Médio geralmente aparecem na mídia internacional como lugares extremamente perigosos para os estrangeiros residentes e, em particular, para os turistas. Se por um lado é verdade que múltiplos conflitos acontecem na região, por outro, a vida diária na maioria das capitais apresenta menos riscos reais do que em muitas cidades brasileiras. Para entender um pouco sobre o assunto, temos que analisar qual o tipo de violência está em causa quando pensamos em segurança.

 

A história recente do Brasil, em particular depois da Segunda Guerra, não está marcada por grandes guerras e conflitos internacionais. Quando se menciona o tema da segurança no país o que aparece na mídia, com grande frequência, é o tema da violência urbana, comumente associado à desigualdade social e ao tráfico de drogas. É fato que a mídia tende a ser sensacionalista para vender notícias e que muitos estrangeiros imaginam o Brasil muito mais violento do que realmente é, mas não podemos ignorar que o assunto da violência tomou proporções assustadoras nos últimos anos.

 

O Brasil, país famoso pelo carnaval e pelo futebol, apresenta índices alarmantes quando se fala de violência urbana e criminalidade. Em relatório publicado em 2015, a Organização Não-Governamental (ONG) “Anistia Internacional” chamou atenção para o fato de que o número de mortes no Brasil é muito mais alto do que em muitas regiões do mundo em guerra, com cerca de 56 mil vítimas homicídios por ano. Para fins de comparação, vale lembrar que durante os 20 anos da Guerra do Vietnã (1955 – 1975) morreram 50 mil soldados americanos.

 

 

A história moderna do Líbano, por sua vez, é marcada por períodos de instabilidade e diversos conflitos. Diferentemente do Brasil, a imagem que a mídia vende do país está quase sempre associada à dinâmica da guerra e do terrorismo. Se por um lado a instabilidade política e a guerra na Síria faz com que muitas regiões do país se encontrem vulneráveis a conflitos repentinos, o índice de criminalidade urbana no país é considerado de “baixa intensidade”, com 240 vítimas de homicídio por ano, de acordo com estatísticas do governo e da ONU.

 

Para se ter uma idéia mais precisa do quanto a violência urbana atingiu níveis alarmantes no Brasil – e na América Latina em geral -, a ONG mexicana “Consejo Ciudadano para la Seguridad Pública y Justicia Penal” publica anualmente uma lista das cidades mais violentas do mundo, baseada no número de homicídios por ano e considerando apenas cidades com mais de 300 mil habitantes. Dentre as 50 cidades mais violentas, 21 estão localizadas no Brasil. A Venezuela, com 8 cidades, ocupa o segundo lugar, seguida do México com 5, da África do Sul e dos Estados Unidos, cada um com 4, além de 3 na Colômbia e 2 em Honduras. Nenhuma capital ou grande cidade do Oriente Médio aparece entre os 50 lugares mais violentos do mundo.

 

É óbvio que não se pode encarar o tema da segurança apenas a partir de estatísticas, porém os dados apresentados ilustram que a vida diária em muitos lugares do Brasil pode ser bem mais insegura do que no Líbano. É verdade que ninguém está totalmente imune à violência, mas arrisco dizer que, atualmente, sinto-me mais segura caminhando sozinha nas ruas de Beirute do que em muitas cidades brasileiras.

 

 

Ana Letícia B. Duarte Medeiros

 

 

 

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